Luiz Trigo: O que leva à "perda total"
Uma sequência de erros humanos mais ou menos primários, falhas de engenharia que passaram despercebidas por muito tempo, sistemas de controle ineficientes operados por profissionais mal preparados. Essa é a conjunção de fatores que provocou centenas de mortes e milhões de dólares em prejuízos nos últimos acidentes aéreos brasileiros. Todos os grandes desastres humanos (acidentes, falências, crises políticas ou econômicas) são resultado de um processo nefasto de erros, irresponsabilidades, omissões e, algumas vezes, o azar. Mas o azar - ou a fatalidade - é um fator absolutamente minoritário nesses fatos. O que potencializa e possibilita as grandes ou pequenas tragédias é o despreparo ou o relaxo perante medidas de planejamento que poderiam evitar ou atenuar os efeitos das catástrofes. Por exemplo, todos os anos no verão brasileiro chuvas torrenciais provocam desabamento de morros e encostas, mas as autoridades e a sociedade civil muitas vezes continuam a se omitir e a manter edificações em lugares de risco. Não é preciso ser profeta para adiantar que em janeiro de 2012 novos deslizamentos matarão pessoas e deixarão feridos e desabrigados em algum lugar do Brasil. Os ingredientes do desastre estão prontos, pendurados nos morros, simplesmente à espera das condições climáticas que detonem o cataclisma. Nesses casos não é acidente e nem fatalidade, é omissão e ignorância.
O carioca Ivan Sant'Anna especializou-se em analisar os desastres aéreos, coletando dados e informações em relatórios oficiais, na mídia, em entrevistas, livros, relatos e ensaios. Com todo esse material ele descreve o drama dos acidentes aéreos com toques literários de suspense, mesclando aspectos técnicos e humanos, dissecando procedimentos e relacionamentos, formando um thriller que todos sabemos acabar mal, muito mal.
Seu primeiro livro foi Caixa Preta, lançado em 2000, onde ele conta os acidentes da Varig em Orly, França (1973), o voo sequestrado da Vasp (1988) e a queda do avião da Varig, voo 254, na floresta amazônica por imperícia total do piloto (1989). A descrição que ele faz do medo (pág. 251) é um dos trechos literários existencialistas mais contundentes: "O medo parece uma besta à espreita, um gatilho clicando, uma luz se apagando, um rastilho correndo, um ferrão se fechando, um açoite estalando, uma mina desmoronando, calcanhares de botas batendo. O medo é um avião perdido na noite, os tanques vazios, as turbinas paradas, caindo".
Seu segundo livro foi Plano de Ataque (2006), onde ele relata as trajetórias e o plano articulado dos quatro aviões sequestrados por terroristas islâmicos em 11 de setembro de 2001. Seu último livro chama-se Perda Total (Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2011) e analisa os acidentes do Fokker 100 da Tam em Congonhas (1996), a colisão entre o Boeing 737 da GOL e o Legacy (2006) nos céus da Amazônia e a explosão do Airbus 320 da TAM, também em Congonhas (2007), esse dois últimos acidentes no cerne da crise aérea brasileira que ainda não foi totalmente sanada. O livro não analisa apenas os três acidentes, mas faz um relato histórico de acidentes semelhantes, no Brasil e no mundo.
O setor aéreo brasileiro possui uma longa história, alguns mitos e pouca memória, portanto esses trabalhos de pesquisa são fundamentais para criar consciência de nossas qualidade e mazelas. Perda Total mostra também uma radiografia dos fatores de crise que assolam - e assombram - o país. No período de redemocratização do Brasil, após a ditadura militar (1964-1985), falou-se muito no entulho autoritário, nos resquícios políticos e burocráticos que o regime nos legou, mas poucos tiveram coragem de falar que parte desse entulho ruim estava justamente no setor aeronáutico militar que durante anos (até 2011) controlou - e mal -a aviação civil brasileira. Parte desse entulho militar beneficiou a antiga Varig em detrimento da Panair do Brasil, que era uma empresa eficiente e bem estruturada e foi criminosamente obrigada à falência pelos militares, em 1965. Foi uma atitude de estado autoritário que beneficiou diretamente a Varig e depois todos sabem o que aconteceu, a empresa caiu vítima de seus próprios desmandos e enganos administrativos. Está história está contada no livro Pouso Forçado (Rio de Janeiro: Ed. Record, 2005), de Daniel Leb Sasaki. O autor graduou-se em jornalismo na PUC-Campinas e seu livro recebeu o segundo lugar no Prêmio Expocom
de Jornalismo.
de Jornalismo.
Esses livros são fundamentais para se entender um pouco da história que levou ao caos aéreo no Brasil. A situação foi criada e amplificada por erros e omissões, atitudes dúbias e anti-republicanas, arbítrios e outras mazelas, desde 1964, quando os militares tomaram o poder no Brasil. Felizmente o atual governo tem feito esforços para colocar a aviação comercial brasileira no seu devido lugar que é nas mãos dos civis e privatizando os principais aeroportos. Ainda há muito a ser feito e uma ação de cidadania e educação fundamental para mudar essas situações é conhecer a história recente da aviação brasileira, obra que esses autores estão justamente elaborando. Quem não conhece sua história está condenado à ignorância, à falta de consciência crítica e a repetir os erros cometidos e as omissões perpetradas. Vamos, portanto, à leitura e à crítica.
*Luiz Gonzaga Gogoi Trigo é turismólogo, escritor, pesquisador e professor Titular da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

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